
Discutir sobre a crise dos alimentos traz outros assuntos importantes junto como nosso papel político.Em recente encontro de estudantes de nutrição, uma das palestrantes perguntava se política era uma atividade específica ou tarefa de todos.
Para responder tal perguntar é preciso pensar no significado da palavra.
Segundo o filósofo grego Aristóteles, a política é a ciência que tem por objetivo a felicidade humana. Ou seja, a política seria a construção do bem comum. No uso trivial e às vezes um tanto pejorativo, política, como substantivo ou adjetivo, compreende as ações, comportamentos, manobras, entendimentos e desentendimentos dos homens (os políticos) para conquistar o poder, ou uma parcela dele, ou um lugar nele: eleições, campanhas eleitorais, comícios, lutas de partidos etc.
O conceito erudito de Nicolau Maquiavel considera política a arte de conquistar, manter e exercer o poder, o governo.
Atualmente, as correntes se dividem em duas.Para uns, política é a ciência do Estado. Para outros, é a ciência do poder (sendo esta a posição da maioria dos cientistas políticos).
De uma maneira simplista a gente pode dizer que o poder está presente em todas as nossas relações e como dizia Aristótles: “O homem é um animal político”.
Mas o que a gente sabe de prático é que a política rege como devemos viver. Nos situando agora na discussão sobre CRISE DOS ALIMENTOS, é a política que diz que o alimento é uma mercadoria, e se você não tiver dinheiro você não tem como obtê-lo. De fato há alguns programas do Estado que fornecem condições para que as famílias muito pobres possam ter acesso a algum alimento, mas o que eu quero dizer é que se hoje acontecer uma catástrofe e você perder o emprego e não tiver dinheiro nenhum, você não terá o que comer, não terá seu direito à alimentação garantido, pois a alimentação é vista como mercadoria.
Muitos dizem que os alimentos são commodities, que estão na bolsa de valores. Tentando descobrir o significado dessa palavra inglesa, tão nova no meu vocabulário achei algumas explicações interessantes:
“Commodities, que significa mercadoria, é um termo usado para se referir aos produtos de origem primária, em estado bruto ou com pequeno grau de industrialização que é utilizado nas transações comerciais nas bolsas de mercadorias.
São produtos básicos, homogêneos e de amplo consumo, que podem ser produzidos e negociados por uma ampla gama de empresas. Podem ser produtos agropecuários, como boi gordo, soja, café; minerais, como ouro, prata, petróleo e platina; industriais, como tecido 100% algodão, poliéster, ferro gusa e açucar; e até mesmo financeiros, como as moedas mais requisitadas (dólar e euro), ações de grandes empresas, títulos de governos nacionais, etc.
O que torna as commodities muito importantes na economia é o fato de que, embora sejam mercadorias primárias, possuem cotação e "negociabilidade" globais; portanto, as oscilações nas cotações destas commodities têm impacto significativo nos fluxos financeiros mundiais, podendo causar perdas a agentes econômicos e até mesmo a países.
Isso significa de modo simplista que se alguém quiser comprar as safras de 2 anos seguintes, pode. Ou se alguém quiser usar sua terra improdutiva (latifúndio improdutivo) para vender uma safra de soja para empresários estrangeiros pode, mesmo que a safra ainda nem tenha sido plantada. Isso torna a terra muito mais bem quista para lucro e o poder destes donos das terras sobre os governos acaba sendo maior do que a necessidade humana daqueles que não tem onde morar e/ou onde plantar.
A verdade é tão simples: entre o lucro e o bem estar da humanidade nossa sociedade escolheu o lucro.
A crise de alimentos também traz para o debate qual o significado que damos à alimentação humana. A gente sabe qual é esse significando olhando, por exemplo, para o modelo de produção de alimentos no Brasil.
É um modelo baseado em:
- agronegócio (agricultura capitalista): que usa grandes quantidades de agrotóxicos e que com isso desemprega muitos.
- monocultura de soja, cana-de-açúcar e eucalipto e pecuária: tudo basicamente pra exportação, usa alta tecnologia e desemprega muitos. Além do prejuízo à saúde do cortador de cana que vive hoje uma situação de escravidão no setor sulcroalcooleiro.
- agrocombustível: seria a solução caso não fosse preciso petróleo para os fertilizantes químicos, agrotóxicos e no transporte da mercadoria. E não fizesse com que nossos campos que plantam alimentos para o consumo interno no país fosse tomados pela produção de cana para produzir álcool e abastecer as grandes potências que não querem mais ficar dependentes do petróleo do Oriente com o qual politicamente não se dão bem.
Esse é nosso modelo, mesmo que:
- a pequena agricultura seja responsável por 80% da alimentação básica.
- Que em Abril de 2008 a ANVISA (Agencia de Vigilância Sanitária) tenha divulgado que tomates, alface e morango estavam com índice de agrotóxicos acima do permitido em lei.
Mas a industria criou os alimentos orgânicos, um alimento mais saudável que não tem nada de diferente além do fato de ser um alimento “sem química”, ou seja, ele poderia ser produzido por você no seu jardim. Recomendemos os alimentos orgânicos, ele são caros, de fato, mas são saudáveis. E afinal só poderá ter direito a qualidade nutricional quem tiver dinheiro.
Esse modelo nos mostra o significa do alimento na sociedade. Ele fica conseqüentemente a mercê das vulnerabilidades do mercado como a alta dos preços. O feijão entre 2006 e abril 2008 aumentou 125,17%. A gente melhor do que ninguém sabe que o feijão junto do arroz compõe o típico prato brasileiro e que a soja embora nutricionalmente possa resolver os problemas, socialmente não porque não temos o hábito de consumo dessa cultura alimentar e muitos nem sabem pelo quê o feijão pode ser substituído.
A agricultura familiar está reproduzindo o agronegocinho, por não conseguir se manter independente e soberana, com famílias vulneráveis ao agronegócio (alimento em grande quantidade para ser exportado e na maioria das vezes para virar ração para gado).
E a SAN nessa história?A gente tem um conceito de Segurança alimentar produtivista que surgiu no inicio dos anos 90 pela Associação brasileira de Agrobussines(ABA) e propõe políticas de segurança alimentar para o país olhando para a produção apenas. E temos o conceito de Segurança Alimentar e Nutricional que diz que estão seguros alimentarmente aqueles que tem alimentação em quantidade, qualidade, regularmente sem comprometimento das outras necessidades básicas.
O que impera é a primeira, pois a oferta de que tipo de produto vamos ter no mercado é mais importante do que a demanda que a sociedade apresenta. Eu estudo tanto sobre que alimentação a sociedade precisa, de que adianta todos esses estudos se quem diz o que vai ter para eu comprar é o Mercado (ele nos diz que vai vender o que render mais lucro!).
Pra gente que é estudante, falta aprender quando entramos na universidade que conhecimento não é suficiente e que, portanto, é preciso fazer uma escolha por compreender o que está acontecendo e se posicionar (uma escolha política).